Mostras, mostras, mostras
Bom dia. Boa tarde. Um troço desses.
Continuando o papo de ontem, o Festival do Rio deste ano está um pouco menor. Há menos filmes. Mas, principalmente, há menos mostras. Este ano, à exceção da Pocket Films (filmetes feitos especificamente para telefones celulares, que passarão reunidos em três programas de cerca de 15 filmes cada) e da Novas Imagens do Irã, cujo título é auto-explicativo, o que há são as mostras de sempre, a estrutura básica de todos os anos.
Então, vambora detalhá-la.
O Panorama é a vitrine. Os filmes de diretores consagrados, os premiados em Cannes-Berlim-Veneza-Toronto-Sundance-San Sebastián-etc, os filmes com rostos conhecidos no elenco. E, também, é verdade, o território preferencial dos filmes já comprados para exibição comercial no Brasil. Ou seja, aqueles que dá para ver depois do festival, sem correria. Não são todos, mas é boa parte. Podem até demorar a estrear. Podem demorar bastante. Mas acabam chegando.
A Expectativa, por outro lado, é o território das incógnitas. São trabalhos ainda pouco divulgados que o festival aposta que podem ter repercussão, diretores de que a comunidade internacional do cinema espera alguma coisa, a julgar pelos filmes que estão aí. Não quer dizer que eles vão vingar. Quem se der ao trabalho de checar as seleções de filmes da Expectativa de 1999 a 2005 vai ver vários ninguéns que continuaram a ser ninguéns. Apostas. Tiros no escuro. Não deram em nada. Normal. Mas há também aqueles diretores cujos filmes, hoje, são incluídos no Panorama. É loteria. E aqui, sim, muitos filmes podem não chegar ao circuito comercial jamais.
Midnight Movies é o território das bizarrias. Dos filmes de tribo (que têm apelo específico ao público da animação japonesa, ao do rock'n'roll, ao dos filmes barra-pesada, ao do cinema trash etc). Dos filmes em que a sessão é o grande acontecimento, independente de o filme ser propriamente bom ou não. Aqui, a grande maioria nunca chega ao circuito. Ou chega só em DVD, um ano depois, sem grande alarde.
Cá entre nós? Minha mostra favorita. Todo ano procuro ver o mais que der da Midnight Movies. :-)
Dox, Doc Latino e Fronteiras são as subdivisões onde se concentram os documentários. Na Dox, uma mostra pequena, entra qualquer tema. Na Doc Latino, bem, o título explica: filmes que tenham a América Latina como procedência e como temática. E a Fronteiras, que é das mostras mais freqüentadas do evento, é onde entram os docs sobre a turbulência no mundo: são as guerras, os conflitos étnicos, as tragédias de refugiados. É a mostra de quem encara o Festival do Rio como uma janela para o mundo real, mais que para o mundo do cinema.
As Premières Brasil e Latina são as baterias de pré-estréias de filmes brasileiros e latino-americanos que, em grande parte dos casos, só chegarão ao circuito de seus respectivos países dentro de alguns meses. São as duas mostras que mais atraem o interesse da imprensa estrangeira, porque os filmes tendem a ser pré-estréias mundiais, ao passo que em mostras como Panorama e Expectativa, eles já vêm com a chancela de festivais lá de fora, por onde passaram meses atrás.
Todo ano, há as retrospectivas da obra de algum cineasta, ou alguns cineastas. Nem sempre completas, infelizmente; este é um território em que o Festival do Rio costuma errar mais do que acertar. Ou faltam filmes fundamentais, ou a mostra fica escondida em algum cinema distante do centro nervoso do evento, ou as cópias são de má qualidade... é comum que haja algum revés. Mas bem, torçamos. Este ano são três homenageados: o brasileiro radicado em Israel David Perlov, Alejandro Jodorowski e Luchino Visconti. Essa última é a maior. Falo mais das três num próximo post.
Há ainda dois filmes brasileiros antigos em cópias restauradas e a Sci-Fi Mex, que é uma retrospectiva não de um diretor, mas de um gênero. Mais a respeito num próximo post.
Mundo Gay e Geração têm públicos-alvo bem específicos. O da Mundo Gay, o nome explica. O da Geração são as crianças. São mostras já tradicionais, mas, a bem da verdade, é bem raro que tragam filmes que consigam ir além das respectivas faixas de interesse.
Há a Foco Canadá. Todo ano, o Festival do Rio dedica uma mostra à produção de algum país. Nos sete anos passados (pois é, errei o título do meu post anterior, :-)), tivemos Focos Alemanha, França, Inglaterra, África do Sul, Espanha, e, bem, dois outros que não lembro agora. Enfim. Vocês pegaram a idéia.
E há a Cine Que Pensa e a Conexão Moma (ex-Capacete), ambas com aqueles que a gente não tem como evitar chamar de filmes-cabeça. Os diretores detestam, acham o termo pejorativo, reducionista. Sinto muito. Não vou deixar de usá-lo. Em muitos casos, são mais conceitos do que filmes, universo-umbigo total. Como vocês podem ver, não tenho muita simpatia por essas duas mostras, não.
Até mais tarde. Próximo post: Dália Negra. Por esse assunto, sim, tenho grande simpatia. Até já. Por: Jaime Biaggio

